Cultura – Reportagem Estado de Minas – dia 11/12/2011

Rebobine, por favor Sem nada de novo a oferecer em termos de tecnologia, fitas de VHS sobrevivem pela paixão de aficionados por filmes clássicos.Equipamentos só são encontrados em lojas de usados

Mariana Peixoto

Publicação: 11/12/2011 04:00

Marco Antônio Junqueira, da locadora Cinecittà, tem acervo de 7 mil fitas de VHS para alugar, muitas delas inéditas em DVD e Blu-Ray

O que um drama sueco (Amigas de colégio, de 1998), um thriller italiano (A garota de Trieste, de 1982) e um clássico pornô (O diabo na carne de Miss Jones, de 1973) têm em comum? Produzidos em épocas totalmente diferentes, os três filmes só podem ser encontrados, em cópias originais, no formato VHS. É na condição de raridade que um mercado, dado como morto na era da alta definição de imagens, consegue sobreviver.

Assim como o cassete e o vinil, as fitas de vídeo, popularíssimas até meados da década de 1990, perderam mercado e até sua razão de ser com a chegada do DVD. O vinil, que renasceu nos últimos anos, é defendido pelos amantes do som mais puro. O videocassete, por outro lado, não tem muita defesa, já que a qualidade é precária se comparada à do DVD e do Blu-Ray. Mas são cinéfilos que ainda conseguem fazer locadoras apostarem no filão.

“Noventa e cinco por cento do meu acervo de VHS não existe em DVD”, afirma Marco Antônio Junqueira, um dos sócios da Cinecittà, locadora no Bairro Funcionários especializada em filmes de arte. Há duas décadas, o espaço, que em 2010 inaugurou café e restaurante, é referência para os fãs do cinema que foge do conceito de blockbusters. Seu acervo total é de 15 mil filmes. Destes, 7 mil são em VHS. “Normalmente, quem aluga um VHS é uma pessoa que tem todas as tecnologias em casa e faz uso dele por necessidade. Não se acha muito filme raro em outra tecnologia”, explica Junqueira.

Quando fala em raridade, ele inclui, por exemplo, 700 filmes italianos sem legenda que recebeu como doação do Consulado da Itália. Ainda estão encaixotados, porque não há espaço para exibi-los. Espaço, ou melhor, a falta dele, foi o que levou uma das mais tradicionais e maiores locadoras de Belo Horizonte, a Videomania, em Lourdes, a fazer um saldão. Há três meses iniciou a venda de cerca de 10 mil títulos de VHS a R$ 1. A procura foi além das expectativas, tanto que mais da metade do acervo já se foi. “Filme clássico é o mais procurado”, comenta o funcionário Vinícius Silva.

Com a venda desse material, o espaço será destinado a mais filmes em DVD e Blu-Ray. Mas isso é só uma parte. “No porão, que é do mesmo tamanho da loja, ainda estão milhares de vídeos”, revela Silva. Mesmo com a venda, a Videomania, inaugurada em 1983, vai guardar fitas que ainda não têm cópias em outras mídias. “Devemos manter entre 500 e 1 mil cópias de filmes nacionais como Rio Zona Norte e Como era gostoso o meu francês (ambos de Nelson Pereira dos Santos, de 1957 e 1971, respectivamente).”

Ambas só alugam fitas originais. “Só passo para o DVD filmes muitos antigos, das décadas de 1930 a 1950, e quando o cliente pede”, explica Junqueira. Outras grandes locadoras de BH como a Dumont, no Bairro Mangabeiras, não trabalham mais com a mídia. A Cia. do Vídeo, que tem nove lojas e um acervo em torno de 30 mil filmes, guardou somente 250 em fita, que são alugados apenas na matriz, no Mangabeiras. “São filmes clássicos que têm alguma importância e não existem em DVD”, afirma o gerente, Marcelo Guimarães. Como o VHS ocupa muito espaço, eles não ficam à mostra.

Já o produtor teatral Luiz Hippert mantém um acervo de 2 mil fitas em sua locadora, HiperVídeo, na Floresta. “Quando comprei a locadora, há 11 anos, praticamente só existia VHS. E, como ele foi produzido até 2005, continuei comprando. Então tenho tanto clássicos quanto filmes novos”, explica ele. A demanda, de acordo com Hippert, é bem pequena. Mas ele não se desfaz das fitas. “Adoro fitas de VHS, que fazem parte da minha memória afetiva”, conclui.

 

 

Barato que sai caro
Ter um videocassete em casa não é barato. Há disponíveis no mercado aparelhos a partir de R$ 60. Mas esses são modelos antigos, de qualidade ruim. Um bom aparelho como um Sony Super VHS estéreo sai por R$ 280 na Bagatelas & Badulaques, brechó no Funcionários. Também Sony, um aparelho de quatro cabeças custa R$ 130 e um Samsung R$ 80. A título de comparação, hoje se compra um aparelho de DVD novo por menos de R$ 100. Já a conversão de uma fita VHS para um DVD custa R$ 20 na VHS Converte, empresa na Cidade Jardim que também converte fitas cassete para CD e vinis também para o formato digital. “A conversão não melhora em nada a qualidade do VHS, que já é baixa. No DVD, ele fica exatamente igual. A vantagem é na preservação do material”, explica João Alberto Canabrava. A maior parte do material convertido por ele é de vídeos caseiros. 

 

 

PERSONAGEM DA NOTÍCIA

SÉRGIO ALVIM, 58 ANOS, Colecionador


Problemasdomésticos

Toda vez que Sérgio Alvim passa em frente à locadora Videomania, em Lourdes, sua mão coça. Mas ele está resoluto em não ceder à tentação. Senão, o tempo pode fechar em casa. Nas dependências de empregada, ele guarda um acervo de 3 mil a 4 mil fitas de VHS. Uma resolução de ano-novo (e também promessa à mulher) é se desfazer, aos poucos, do material. Recentemente doou as fitas com produções infantis. Mas a doação só ocorre para aqueles que têm um videocassete em atividade. Senão, não há sentido. E esse tipo de problema Alvim não tem. Contabiliza 12 aparelhos em casa, escolhidos a dedo em brechós da cidade. “Se você assistir num vídeo Super VHS (com seis cabeças), vai ter uma leitura fidedigna do filme, consegue inclusive parar a imagem, quadro a quadro, como no DVD. E o som é estéreo”, conta ele, que da mídia mais recente tem pouca coisa em casa. “Assisto em vídeo porque muitos dos filmes antigos, que são os de que gosto, não foram para o DVD. Nasce uma estrela, com a Barbra Streisand, não tem em DVD. Adoro os filmes do Brian de Palma e alguns deles também só existem em VHS”, continua ele, que mesmo “enxugando” o acervo vai guardar os filmes preferidos. Um deles é Fantasia, de Walt Disney, que ele tem nos dois formatos. Alvim fala do vídeo com propriedade porque já teve uma produtora e atualmente trabalha com filmagem de cirurgias. Passar o material do VHS para o DVD não interessa a ele. “Não fica a mesma coisa, gosto dos filmes originais”, finaliza.

 

 

SAIBA MAIS VHS
Sigla para Video Home System (Sistema de Vídeo Doméstico), o VHS, criado pela JVC em 1976, tornou-se o mais popular sistema de vídeo do gênero, superando, na década de 1980, o Betamax, o primeiro formato popular de videocassete doméstico. Permite gravação com aproximadamente 280 linhas de definição e pode registrar até 6 horas de material. O Super-VHS, criado posteriormente, utilizava o mesmo tamanho de fita só que com um processo mais sofisticado de gravação e reprodução. Com o desenvolvimento de outros formatos de captação de imagem no padrão digital (MiniDV) e com a difusão do DVD para reprodução, em meados da década de 1990, o VHS perdeu mercado. A última grande fabricante desse formato, a Distribution Video Audio (DVA), deixou o mercado em 2008.